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ANÁLISE | Como foi 2017 na televisão portuguesa?

Com 2017 praticamente no fim chega a hora de avaliarmos os últimos 12 meses da televisão portuguesa. No Olhar a Televisão, num total de quatro artigos, vamos esmiuçar o bom e o mau do pequeno ecrã. Hoje, olhamos para o estado global da televisão nacional.

2018 está já aí, motivo mais que suficiente para um balanço do ano que agora termina, e não menos importante, para um traçar dos objectivos para os próximos 12 meses. Por esta altura, RTP, SIC e TVI vão revelando algumas das apostas, mas antes disso há que olhar para o que se passou, e que não foi de todo positivo. Bem pelo contrário.

O discurso, é sempre o mesmo. Ao investimento deficitário na programação, diretores de programas respondem sempre da mesma forma: "é uma consequência da crise", "não há dinheiro", "o retorno publicitário é fraco". Ora, é certo que a crise económica trouxe reduções nos custos, trouxe despedimentos e, consequentemente, desinvestimento na programação. É também certo que o mercado publicitário continua frágil e volátil - mas já teve dias piores, convenhamos. Mas é ainda mais certo que, aos poucos e poucos, as coisas estão a melhorar, e a palavra "lucro" já se começa a ouvir - mais do que uma vez, até. O problema reside sobretudo nas dívidas das empresas de comunicação que continuam sem ver a luz ao fundo do túnel.

Por outro lado, há também quem atribua ao universo cabo o papel de bode expiatório nesta perda de popularidade dos canais generalistas. Não nos parece. O boom da chamada pay tv é um facto incontestável e pode até ser justificação para a quebra de audiências da tv tradicional. Mas em abono da verdade, os canais abertos continuam a ter uma grande fatia do auditório, uma posição privilegiada e que não está a ser devidamente aproveitada.

Assistimos a grelhas cada vez mais pobres, com uma programação horizontal que espelha isso mesmo - excepção seja dada ao operador público. Do lado dos canais privados, os mesmos conteúdos, de segunda a sexta-feira, e já nem o fim de semana escapa - veja-se, por exemplo, que as telenovelas quer da SIC quer da TVI ocuparam grande parte dos fins de semana de 2017. Faz falta variedade. Faz falta diversidade. E nisso, o operador público leva vantagem - embora, no fundo, nada mais faça do que cumprir aquilo a que se chama de serviço público de televisão. E nem sempre é tão linear assim. Mas este, de resto, será um ponto para analisar com maior detalhe num próximo artigo dedicado na íntegra à RTP.
Nem tudo foi mau, que o diga a ficção. Em 2017, os canais apostaram em novelas e séries, e da grande concorrência entre eles resultaram produtos de qualidade - nos guiões, na cenografia, na imagem e na realização. São preocupações importantes até porque os espectadores estão cada vez mais exigentes. Ainda assim, faltam outros conteúdos de ficção, nomeadamente séries. O público já se começa a cansar de novelas. E, pior do que isso, novelas excessivamente longas!

No que ao entretenimento puro diz respeito, a falta de investimento foi catrastófica. A grande "batalha" dos domingos à noite parece já ser uma luta de outros tempos. A solução mais fácil passa agora por novelas (mais novelas) e por produtos low cost. Sabemos que, as notícias que por estes dias correm na imprensa, dão conta de que em 2018 este cenário irá mudar. Esperemos realmente que mude.

Um outro ponto que aqui gostariamos de destacar diz respeito às inovações tecnológicas, que tardam em chegar à televisão portuguesa - e quando chegam, fazem-no muito lentamente. A emissão em alta definição (exceptuando os produtos de ficção e alguns programas gravados da SIC da RTP 1) parece estar ainda muito distante de se tornar uma realidade. Em 2018, é esperado que a RTP 1 passe a emitir na íntegra em HD, uma promessa que, a cumprir-se, já peca por tardia (foram anunciadas mudanças para a rentrée deste ano que nunca chegaram a acontecer). Novidades deve trazer também a SIC com a mudança de estúdios para o novo edifício, em Paço de Arcos, prevista para Outubro. Do lado da TVI, em ano de 25º aniversário, novidades também não deverão faltar. Venham elas!

Em jeito de balanço geral, facilmente constatamos que 2017 foi um ano pobre na televisão portuguesa, dos mais pobres de que há memória na história recente. Com o chegar de um novo ano, esperemos que os ventos mudem e que as ideias apareçam. Porque o que falta são sobretudo as ideias, e não apenas o dinheiro. Falta arrojo. Falta inovação. Falta criatividade. E já que estámos numa de imitar o que outros fazem, há tão bons exemplos que nos chegam do estrangeiro e que podiam servir de inspiração... Há que perder o medo de arriscar, de uma vez por todas.

Mas ficou ainda muito por dizer. E são certamente muitos os pontos, caro leitor, que aqui gostaria de ver abordados com maior detalhe. Por essa razão, nos próximos dias vamos fazer um balanço particular de cada uma das três estações de televisão. E há muito, muito para ser dito!

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